Dez

agosto 9, 2012 § 1 comentário

Depois de semanas tentando, finalmente consegui mergulhar (sem retorno prévio) em meus sentimentos mais escuros. Consegui por tudo que tinha em mente no papel. Tá sem revisão, com a formatação porca, e assim ficará. Quero que este seja, para sempre, puro. Aprecie, leitor, se gostar.

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Sua beleza era estonteante, seus cabelos ao vento, olhos penetrantes. Pele macia, lábios grandes, nariz jeitoso. E era imperfeita! Isso era o mais importante: Seus defeitos, seu jeito errado de ser, incerto e um pouco cruel. Egoísta demais e, ah, como ela era hábil com as palavras.

Com um jogo de corpo, conseguiu arremessar o homem contra o chão. Limpou o sangue que escorrida do lábio inferior com as costas de uma das mãos e, de pé, majestoso, vencedor, encarava o outro, sentado, miserável, perdedor. A briga chegara a um fim, mas ainda não o verdadeiro fim.

Ela surgiu em sua vida em um momento inesperado, como uma pessoa distante e intocável. Ele hesitou, se encolheu e se protegeu. Ela, com seu jeito doce e carinhoso, abriu seu espaço e foi caminhando mais fundo no mundo dele. Ele simplesmente se entregou e se deixou sentir tudo que queria. Ela também. Até que…

Pegou o revolver que marcava sua pele com a pressão do cinto de sua calça, conferiu o barril e apontou para o homem caído. Sim, esse era o verdadeiro fim. E seria lento e doloroso.

O encanto acabou. Ele se tornou um pobre miserável e ela continuou com seu jeito determinado. Uma menina, nunca deixou de ser, mas também uma mulher. Cruel, dominadora e poderosa, verdadeira sedutora. E ele, além de tudo, apenas um garoto… Um garoto patético que tentava viver uma vida que não era sua, nem nunca iria ser.

O som do tiro ecoou pela casa grande, seguido pelo grito estridente. Uma bala alojada em um joelho quebrado. Outro tiro, uma coxa jorrando sangue. Olhou para a face em agonia do homem caído… Sim… Era isso que queria. Mas não sentia prazer, apenas desprezo, nojo, com uma pitada de indiferença.

Nunca mais belas palavras foram recitadas por ela, apenas compreendidas quando ele as dizia. Nunca mais admiração brilhava em seus olhos, apenas a compaixão suave que tinha por aquele que nada tinha. Nunca mais amou a ele, apenas a outros.

Um no ombro. Não tinha um motivo em especial, apenas achava que o ombro deveria doer bastante, claro, nada como doeria atirar em algum órgão, mas não era essa dor que ele queria. Queria o desespero, queria o completo controle e a completa decisão sobre a vida dele. Queria torná-lo incapaz de fugir. Um tiro no cotovelo do outro braço.

Disse, quando tudo acabou, tê-lo conhecido em uma noite fria dessas de inverno, enquanto voltava para a casa, trombou nele e ele, com sua lábia perfeita e sua sedução descomunal, desenvolveu um sentimento no peito dela que ele jamais foi capaz. Teve certeza, naquele instante, dos sentimentos que nunca teve na vida. Ela não voltou aquela noite.

Quatro tiros já haviam sido disparados, o homem caído chorava, mas suas lágrimas já não saiam. Sua lábia perfeita era inútil, principalmente contra o aço quente que lhe ardia a carne. Deu o quinto tiro, diretamente na testa como execução, e o tormento do homem acabou. A lábia, a sedução, tudo. Sentiu o vazio invadir-lhe o peito com sua mais pura ausência de sentimentos. E isso, para ele, era a paz.

Ah, a sexta bala, a última, era para ele e apenas para ele, como ela deveria ter sido. Tocou o cano da arma no céu da boca, respirou fundo e fechou os olhos.

Ela… Ela era a musa de sua vida… Mas era, em especial, a musa de seu lado conturbado e assassino.

E também de seu lado suicida.

Nove – Frio como o Vento de Inverno.

maio 27, 2012 § Deixe um comentário

Frio como o Vento de Inverno.

 

Seus olhos abriam devagar, se acostumando aos poucos com a luz do quarto branco, assim como sua mente foi aos poucos se recuperando do forte efeito das drogas. A cabeça pendia de um lado a outro, mais pesada do que realmente era. Não pensava em nada além de um “o que?”, incapaz de reconhecer as coisas, o mundo, ou a si mesmo.
Tentou mover um braço. Não conseguiu, o peso do lençol sobre seu corpo parecia maior do que sua força levantaria. Piscou três vezes e tombou a cabeça para a esquerda. E viu o Sol… Dele não esqueceria, mesmo que sem tanta certeza. O Sol atravessando o vidro grosso da janela. Isso deveria aquecer o lugar, mas por que sentia tudo tão frio?
Começou a processar melhor as informações, observou o que existia ali: Um televisão desligada, uma poltrona marrom de muito mau gosto, aparelhos que ele não conseguiria nomear ligados a seu corpo, e uma mulher.

Uma mulher?

Sim… Sua cabeça, tombada para a direita, tentou focar sua visão na face feminina, mas seus olhos não respondiam com clareza a seus comandos. Quem era ela, afinal? Podia ver, no vulto embaçado, cabelos negros e pele bem branca. Piscou, se concentrou, a boca se abriu e fechou involuntariamente. Semicerrou os olhos, poderia ser que isso melhorasse sua visão. Nada.

A mulher começou a caminhar em sua direção e, aos poucos, começou a enxergá-la. Ela era simplesmente linda, estonteante, e ele se esqueceu por um instante de sua situação confusa, quanto mais de questionar quem ela era. Seus olhos não paravam de se obcecar pelos olhos azuis acinzentados da moça enquanto eles lhe corriam por toda a face. Abriu um sorriso de compaixão, um pouco de pena, e tocou com a ponta de seus dedos a face do homem. Dedos gelados, frios como um forte vento de inverno, trazendo uma tranqüilidade tão grande quanto uma tarde de outono. Ele se sentiu leve, sem mais preocupações, sem mais sensações, apenas a mais pura tranqüilidade. Com a outra mão, ela afastou os fios negros de seu próprio rosto e o abaixou na direção do rosto do homem caído, tocando, com seus lábios finos e gelados, os lábios pálidos e com resquícios de verão do enfermo. Ele fechou os olhos ao sentir o toque e se deixou levar sem mais delongas. Sabia bem o que lhe aguardava.

Sabia que aquele era o beijo amargo da morte, e que em instantes tudo estaria terminado. Tudo.

Sete – Anel.

abril 6, 2012 § 1 comentário

A pequena peça dourada brilhava com o sutil reflexo da lua e seus olhos brilhavam com o belo vislumbre do pequeno anel de ouro, olhos turquesa refletindo o brilho dourado imponente daquilo que muitos chamariam de maldição, mas que para ela, e para muitas outras, era o fim de um tormento.

O som de um galho se rompendo na distancia fez com que invocasse toda a força dos músculos de seus dedos finos e delicados e esses envolvessem a peça de ouro. Seus belos olhos se focaram em vários pontos por segundos consecutivos, sua mente entrava em fase de desespero e a adrenalina começa a percorrer cada centímetro de seu corpo. Pensar, não mais, tudo que poderia contar com a partir de agora era seu instinto. E a primeira imagem que jogou em sua mente foram as cruéis lembranças deles, os caçadores, o que gerou novamente aquele forte sentimento de terror.

Ouviu outro som, não identificou o que era, mas fosse o que fosse, ela percebeu de onde vinha e seu instinto decidiu correr para o lado contrário.

Felizmente, aquela era a direção que sua choupana existia.

Não conseguiu pensar uma segunda vez, correu pelo chão úmido e coberto de folhas secas. Saltou raízes largas das mais diferentes formas. Esquivou de grandes troncos verdes, marrons e até mesmo negros quando a luz da lua lhe faltava.

Sua pele branca e sensível se rasgava cada vez que caia, seus joelhos começavam a sangrar e a dor lhe envolvia as pernas, mas isso não iria pará-la, não, e jamais deixaria o anel fugir pelos seus dedos.

Ouviu gritos e passos pesados logo atrás, ouviu mais galhos quebrando e folhas sendo estraçalhadas sob botas pesadas. Cada caçador sabia seu plano, e ela sabia o plano de cada um deles: Matá-la. Destroçá-la, Erradicar a última das bruxas, a última que conseguia manter contato com a natureza e sua pureza, a última a respeitar a verdade e o tempo da terra.

A última a ser chamada de pagã.

Entrou em sua casa, bateu a porta de madeira e encostou-se nela. Lagrimas começavam a descer mais e mais, seus lábios finos tremiam em desespero e seu semblante foi tomado pela pura agonia. Não sabia mais o que fazer, mesmo que pensasse estar segura dentro de casa, sabia lá no fundo que só estava se enganando, que estar ali, que fugir dali, mesmo que fizesse qualquer outra coisa, iria ser pega, iria ser morta e iria queimar, viva ou não, até não restar mais nada.

Apertou mais o anel em sua palma, precisava fazer algo com ele, precisava salvá-lo, precisava que aquele terror terminasse.

Fosse hoje, ou fosse amanhã…

Teve uma idéia: um último encanto e depois se entregaria. Correu para frente do armário, abriu-o e arrancou uma pequena caixa de madeira, colocou o anel com delicadeza ali e a fechou. Sussurrou algumas palavras antigas e a caixinha se lacrou com magia, arrancou outras coisas de dentro do armário, algumas folhas, animais mortos, pó mágico. Jogou tudo no chão e colocou a caixa no meio, falou outras palavras na língua antiga e os objetos começaram a brilhar,  a orbitar a caixinha que, agora, flutuava.
Era um encanto proibido, mas era o único que poderia ajudar.

Era um encanto de viagem no tempo. Com apenas aquela quantidade de objetos, ela não poderia ir, mas o anel iria.

A caixa sumiu no ar, a magia se desfez e uma sutil tranquilidade de saber ter feito o que podia fluiu pelo seu corpo.

Abaixou a cabeça, seus cabelos negros e longos lhe tamparam a face e a madeira do chão ficava úmida com suas lágrimas que, agora, começavam a cessar aceitando seu destino.

Ouviu mais gritos, ouviu a porta se quebrando e ouviu as botas pesadas contra o chão.

Sentiu uma pontada nas costas, seguida de uma dor dilacerante, um formigamento nas extremidades do corpo. Sua visão se esvaziou, o foco se perdeu, a dor se tornou anestesiante e seus pulmões lhe falhavam.

Não tinha mais ar, não tinha mais o brilho nos olhos turquesa.

Tinha apenas a esperança de que as gerações futuras se salvariam, e acreditava nisso com o restante de suas forças, forças que, junto de sua vida, esvaiam com o sangue escorrendo pela ferida em seu peito, manchando suas roupas e marcando o chão.

Quatro

março 8, 2012 § Deixe um comentário

Ele ergueu sua espada aos céus, um brilho esverdeado cegou todos ao redor enquanto um tornado se formava ao redor de Sir Anthony. Seus olhos baixaram da espada para os  dez cavaleiros diante dele, cavaleiros imundos, cavaleiros da família inimiga, cavaleiros que mantinham a princesa presa como refém. Desonrados, porcos.

Com uma fúria no olhar, desceu Vento, sua espada, e o tornado avançou sobre os homens indefesos, homens que foram erguidos e arremessados em direções distintas. Homens mortos, porcos mortos.

Embainhou Vento e se virou para seu próprio exército, homens espantados e temerosos, homens que repugnavam magia. Homens vivos, covardes vivos.

Subiu em seu cavalo de guerra, marrom, imponente, bateu as rédeas sobre o longo pescoço do animal que, num salto, se pôs a galopar. Num grito de guerra, Anthony foi seguido por todos os seus soldados temerosos, soldados que começavam a achar que poderiam ser pegos pela magia da espada e poderiam morrer desonradamente. Soldados vivos, traidores vivos.

Anthony, a frente de todos, observou o exercito oponente se movendo desesperados após verem que, tanto o mensageiro, quanto sua escolta foram arremessados por um fluxo de vento mágico todos soldados inimigos. Porcos Inimigos, covardes inimigos.

Desembainhou Vento ao perceber a comoção e o desespero dos homens que acreditavam ter vantagem numérica, cortou o ar a sua frente ao perceber que os inimigos temiam tanto a magia quanto seu próprio exército, sorriu ao perceber que a lâmina de vento cortou a vanguarda do exército inimigo. Inimigos covardes, inimigos mortos.

Seus soldados não pararam, nem recuaram, mas temeram, mantinham-se atentos ao líder, a Sir Anthony, o grandioso cavaleiro, o vencedor invicto do torneio dado pelo Rei, o grande guardião de Vento, a espada mágica que jamais fora usada nos últimos séculos, e futuro salvador da princesa. Salvador apaixonado, salvador assassino.

O exercito oponente se dispersou ao ver cabeças rolando para todos os lados sem sequer haver um único contato entre os dois exércitos, mas Sir Anthony não parou, nem seus soldados temerosos, o fogo brilhava em seus olhos, a determinação, a concentração. Ele precisava derrubar todo aquele exército e seguir ao castelo, ele precisava resgatar a princesa, ele precisava devolvê-la inteira ao rei, ele precisava ver seu sorriso mais uma vez. Paz ao Rei, Justiça aos captores.

Quando Anthony chegou aos cavaleiros e cavalos decapitados, não restava mais exército para enfrentá-lo, não restava mais resistência em seu caminho, não restava mais nada entre ele e o castelo que sua amada estava presa. Pulou de cima do cavalo, gritou para que seus soldados não saíssem dali e, com o punho de Vento fortemente preso em sua mão direita, desceu em direção ao castelo inimigo.

Um Castelo E Seus Habitantes Desonrados, Um Homem E Sua Coragem Infinita.

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