Nove – Frio como o Vento de Inverno.

maio 27, 2012 § Deixe um comentário

Frio como o Vento de Inverno.

 

Seus olhos abriam devagar, se acostumando aos poucos com a luz do quarto branco, assim como sua mente foi aos poucos se recuperando do forte efeito das drogas. A cabeça pendia de um lado a outro, mais pesada do que realmente era. Não pensava em nada além de um “o que?”, incapaz de reconhecer as coisas, o mundo, ou a si mesmo.
Tentou mover um braço. Não conseguiu, o peso do lençol sobre seu corpo parecia maior do que sua força levantaria. Piscou três vezes e tombou a cabeça para a esquerda. E viu o Sol… Dele não esqueceria, mesmo que sem tanta certeza. O Sol atravessando o vidro grosso da janela. Isso deveria aquecer o lugar, mas por que sentia tudo tão frio?
Começou a processar melhor as informações, observou o que existia ali: Um televisão desligada, uma poltrona marrom de muito mau gosto, aparelhos que ele não conseguiria nomear ligados a seu corpo, e uma mulher.

Uma mulher?

Sim… Sua cabeça, tombada para a direita, tentou focar sua visão na face feminina, mas seus olhos não respondiam com clareza a seus comandos. Quem era ela, afinal? Podia ver, no vulto embaçado, cabelos negros e pele bem branca. Piscou, se concentrou, a boca se abriu e fechou involuntariamente. Semicerrou os olhos, poderia ser que isso melhorasse sua visão. Nada.

A mulher começou a caminhar em sua direção e, aos poucos, começou a enxergá-la. Ela era simplesmente linda, estonteante, e ele se esqueceu por um instante de sua situação confusa, quanto mais de questionar quem ela era. Seus olhos não paravam de se obcecar pelos olhos azuis acinzentados da moça enquanto eles lhe corriam por toda a face. Abriu um sorriso de compaixão, um pouco de pena, e tocou com a ponta de seus dedos a face do homem. Dedos gelados, frios como um forte vento de inverno, trazendo uma tranqüilidade tão grande quanto uma tarde de outono. Ele se sentiu leve, sem mais preocupações, sem mais sensações, apenas a mais pura tranqüilidade. Com a outra mão, ela afastou os fios negros de seu próprio rosto e o abaixou na direção do rosto do homem caído, tocando, com seus lábios finos e gelados, os lábios pálidos e com resquícios de verão do enfermo. Ele fechou os olhos ao sentir o toque e se deixou levar sem mais delongas. Sabia bem o que lhe aguardava.

Sabia que aquele era o beijo amargo da morte, e que em instantes tudo estaria terminado. Tudo.

Onde estou?

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