Sete – Anel.

abril 6, 2012 § 1 comentário

A pequena peça dourada brilhava com o sutil reflexo da lua e seus olhos brilhavam com o belo vislumbre do pequeno anel de ouro, olhos turquesa refletindo o brilho dourado imponente daquilo que muitos chamariam de maldição, mas que para ela, e para muitas outras, era o fim de um tormento.

O som de um galho se rompendo na distancia fez com que invocasse toda a força dos músculos de seus dedos finos e delicados e esses envolvessem a peça de ouro. Seus belos olhos se focaram em vários pontos por segundos consecutivos, sua mente entrava em fase de desespero e a adrenalina começa a percorrer cada centímetro de seu corpo. Pensar, não mais, tudo que poderia contar com a partir de agora era seu instinto. E a primeira imagem que jogou em sua mente foram as cruéis lembranças deles, os caçadores, o que gerou novamente aquele forte sentimento de terror.

Ouviu outro som, não identificou o que era, mas fosse o que fosse, ela percebeu de onde vinha e seu instinto decidiu correr para o lado contrário.

Felizmente, aquela era a direção que sua choupana existia.

Não conseguiu pensar uma segunda vez, correu pelo chão úmido e coberto de folhas secas. Saltou raízes largas das mais diferentes formas. Esquivou de grandes troncos verdes, marrons e até mesmo negros quando a luz da lua lhe faltava.

Sua pele branca e sensível se rasgava cada vez que caia, seus joelhos começavam a sangrar e a dor lhe envolvia as pernas, mas isso não iria pará-la, não, e jamais deixaria o anel fugir pelos seus dedos.

Ouviu gritos e passos pesados logo atrás, ouviu mais galhos quebrando e folhas sendo estraçalhadas sob botas pesadas. Cada caçador sabia seu plano, e ela sabia o plano de cada um deles: Matá-la. Destroçá-la, Erradicar a última das bruxas, a última que conseguia manter contato com a natureza e sua pureza, a última a respeitar a verdade e o tempo da terra.

A última a ser chamada de pagã.

Entrou em sua casa, bateu a porta de madeira e encostou-se nela. Lagrimas começavam a descer mais e mais, seus lábios finos tremiam em desespero e seu semblante foi tomado pela pura agonia. Não sabia mais o que fazer, mesmo que pensasse estar segura dentro de casa, sabia lá no fundo que só estava se enganando, que estar ali, que fugir dali, mesmo que fizesse qualquer outra coisa, iria ser pega, iria ser morta e iria queimar, viva ou não, até não restar mais nada.

Apertou mais o anel em sua palma, precisava fazer algo com ele, precisava salvá-lo, precisava que aquele terror terminasse.

Fosse hoje, ou fosse amanhã…

Teve uma idéia: um último encanto e depois se entregaria. Correu para frente do armário, abriu-o e arrancou uma pequena caixa de madeira, colocou o anel com delicadeza ali e a fechou. Sussurrou algumas palavras antigas e a caixinha se lacrou com magia, arrancou outras coisas de dentro do armário, algumas folhas, animais mortos, pó mágico. Jogou tudo no chão e colocou a caixa no meio, falou outras palavras na língua antiga e os objetos começaram a brilhar,  a orbitar a caixinha que, agora, flutuava.
Era um encanto proibido, mas era o único que poderia ajudar.

Era um encanto de viagem no tempo. Com apenas aquela quantidade de objetos, ela não poderia ir, mas o anel iria.

A caixa sumiu no ar, a magia se desfez e uma sutil tranquilidade de saber ter feito o que podia fluiu pelo seu corpo.

Abaixou a cabeça, seus cabelos negros e longos lhe tamparam a face e a madeira do chão ficava úmida com suas lágrimas que, agora, começavam a cessar aceitando seu destino.

Ouviu mais gritos, ouviu a porta se quebrando e ouviu as botas pesadas contra o chão.

Sentiu uma pontada nas costas, seguida de uma dor dilacerante, um formigamento nas extremidades do corpo. Sua visão se esvaziou, o foco se perdeu, a dor se tornou anestesiante e seus pulmões lhe falhavam.

Não tinha mais ar, não tinha mais o brilho nos olhos turquesa.

Tinha apenas a esperança de que as gerações futuras se salvariam, e acreditava nisso com o restante de suas forças, forças que, junto de sua vida, esvaiam com o sangue escorrendo pela ferida em seu peito, manchando suas roupas e marcando o chão.

Onde estou?

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